Neurogestão

A neurogestão está na moda. Mas o conceito é muito mais profundo que a tendência

Algumas palavras surgem no universo corporativo como ondas. Há algum tempo, a neurogestão está na moda. De repente, ela está em palestras, artigos, reuniões estratégicas e perfis profissionais. Mas, como acontece com muitas expressões que ganham popularidade rapidamente, existe aqui um risco. 

Um termo pode ser repetido tantas vezes que acaba se perdendo do conceito original. Em alguns casos, transforma-se apenas em um rótulo sofisticado para ideias já conhecidas. Em outros, é utilizado sem o rigor científico que merece.  No caso, a palavra neurogestão diz mais sobre as pessoas do que sobre os processos. E ela vai muito além da tendência. 

Por trás da neurogestão, essa palavra que está na moda, existe algo extremamente relevante. A aplicação dos conhecimentos da neurociência ao comportamento humano dentro das organizações. E é justamente aqui que a nossa conversa se torna interessante. Porque, antes de sermos profissionais, líderes, gestores ou executivos, somos organismos. E as nossas decisões, aquelas que movimentam equipes, negócios e resultados, nascem primeiro no cérebro e no corpo para só depois se transformarem em ações organizacionais. 

As decisões, o estado físico e o estado emocional

Talvez a grande contribuição da chamada neurogestão seja nos lembrar de algo que muitas empresas ainda ignoram. Não existe tomada de decisão desvinculada do estado físico e emocional de quem decide. 

Durante décadas, organizações investiram fortemente no desenvolvimento de competências técnicas. Aprenderam a medir a produtividade, a performance, os indicadores e as metas. Mas só recentemente o mundo corporativo começou a olhar com mais atenção para aquilo que acontece dentro da mente humana.

 A neurociência, por sua vez, tem mostrado que fatores aparentemente simples, como fadiga, privação de sono, estresse prolongado e até mesmo a fome, podem alterar significativamente a qualidade dos julgamentos realizados ao longo do dia. Inclusive, pesquisas na área apontam que a exaustão e a sobrecarga cognitiva prejudicam processos decisórios e impactam diretamente o desempenho profissional.

A complexidade (não ou) das decisões

O economista e psicólogo Daniel Kahneman, conhecido por seus estudos sobre tomada de decisão, demonstrou que o nosso cérebro alterna entre modos distintos de pensamento. Em situações de cansaço ou pressão excessiva, recorremos com mais frequência aos atalhos mentais automáticos, de modo a reduzir a capacidade de reflexão profunda necessária para decisões complexas.

Já o neurocientista António Damásio mostrou que as emoções e os estados internos fazem parte do próprio mecanismo que sustenta as nossas escolhas. O corpo envia sinais constantes ao cérebro para influenciar a maneira como percebemos os riscos, avaliamos tais cenários e definimos as prioridades. Em outras palavras, uma decisão corporativa não começa em uma planilha. Ela começa em um organismo vivo.

Fadiga decisória: nosso organismo é vivo

Dizer que as decisões corporativas nascem de um organismo vivo muda tudo. Imagine uma empresa que percebe que as reuniões mais estratégicas estão sendo realizadas no final da tarde, quando boa parte dos líderes já enfrentou horas de demandas, interrupções, negociações e pressão por resultados. Sob a ótica tradicional, esse detalhe parece irrelevante.

No entanto, de acordo com a neurociência, ele pode ser decisivo. A chamada fadiga decisória é um fenômeno amplamente estudado. Quanto maior o número de escolhas realizadas ao longo do dia, maior será o desgaste dos recursos cognitivos necessários para análises mais criteriosas. Por isso, uma ação prática que qualquer empresa pode implementar imediatamente é simples e de baixo custo. Trata-se de reorganizar a agenda para que decisões estratégicas, análises complexas e reuniões de planejamento aconteçam nos períodos de maior energia cognitiva da equipe. Não é simples?

Antes de discutir novos investimentos, mudanças organizacionais ou decisões críticas, vale entender se os colaboradores estão descansados, se houve pausas adequadas e se o ambiente favorece a atenção e a clareza mental. Em outras palavras: as decisões são tomadas sob pressão ou com espaço para reflexão?

Pode parecer algo pequeno. Mas é justamente aí que reside a força da neurociência aplicada ao trabalho. Ou seja, vale compreender que grandes resultados costumam nascer de ajustes aparentemente frugal. Empresas que aprendem a respeitar o funcionamento humano deixam de enxergar as pessoas como recursos e passam a enxergá-las como sistemas complexos de atenção, emoção, motivação e energia. E talvez seja esse o verdadeiro significado da neurogestão. Não é uma técnica milagrosa. Não é uma tendência passageira. Mas um convite para liderar com mais consciência sobre aquilo que somos.

As influências e o processo

Toda estratégia passa por uma mente. Toda inovação passa por uma percepção. Toda decisão passa por um cérebro. E compreender isso pode ser uma das competências mais importantes para as organizações que desejam construir o futuro sem perder de vista o elemento mais valioso de qualquer negócio. O ser humano.

Aliás, a relação entre os fatores biológicos, emocionais e a qualidade das decisões não é apenas uma percepção do cotidiano corporativo. Estudos na área de neurociência aplicada à gestão mostram que aspectos comportamentais e cognitivos influenciam diretamente o processo decisório e contrariam a antiga ideia de que as decisões organizacionais são exclusivamente racionais. Pesquisadores destacam que emoções, estados internos e mecanismos cerebrais participam ativamente da avaliação de riscos, prioridades e escolhas realizadas no ambiente de trabalho.

A neurogestão na EntrefocUS

Se você chegou até aqui, merece saber que é nessa interseção entre a ciência, o comportamento e o desenvolvimento humano que a EntrefocUS atua. Em nossas mesas de diálogo, eventos corporativos, jornadas de aprendizagem e experiências de desenvolvimento, a neurociência aplicada ao comportamento não aparece como um conceito isolado, mas como uma lente para compreender melhor as pessoas, suas decisões, suas relações e o seu potencial de transformação.

A partir de evidências científicas e de uma abordagem profundamente humana, a EntrefocUS cria espaços onde líderes e equipes podem ampliar a consciência sobre si mesmos, fortalecer conexões e construir ambientes mais saudáveis, produtivos e alinhados com a maneira como o cérebro humano realmente aprende, decide e se desenvolve. Isso pode melhorar as decisões tomadas na empresa, o que impacta em diversos indicadores organizacionais.