Você já percebeu a fome chegar sem lógica aparente? Parece até que ela não começa no estômago, mas no peito (apertado) antes de uma decisão difícil. Também, no cansaço acumulado depois de horas tentando dar conta de tudo. Ou até mesmo naquela sensação de vazio que não sabemos explicar, mas que diminui por alguns instantes quando abrimos a geladeira e/ou desembalamos aquele chocolate que estava no canto da despensa.
Certamente, você não começou essa leitura à toa. Ela é dedicada a você. Para que saiba que nem toda fome é física. Algumas são emocionais. E isso não é conversa de autoajuda. É neurociência nutricional. Ela mostra que emoções como ansiedade, estresse, tristeza e até a solidão podem influenciar diretamente a maneira como nos relacionamos com a comida.
Isso porque, em tais situações, o ato de comer deixa de estar ligado apenas à necessidade energética do corpo (sim, a fome) e passa a cumprir uma função simbólica, a de aliviar, compensar, distrair ou até anestesiar estados internos difíceis de elaborar. É o que conhecemos como alimentação emocional. E sabemos que isso acontece com você.
O corpo tenta resolver o que a mente ainda não entendeu
Somos biologicamente programados para buscar alívio diante de ameaças. Sejam elas físicas ou emocionais. Quando vivenciamos situações estressantes ou sentimentos negativos persistentes, o nosso organismo ativa respostas fisiológicas que vão além da aceleração dos batimentos cardíacos ou da tensão muscular.
Essas respostas também influenciam os nossos desejos alimentares. Alimentos ricos em açúcar e carboidratos simples, por exemplo, estão associados ao aumento da produção de serotonina. Trata-se de um neurotransmissor relacionado à sensação do bem-estar e do relaxamento. Ao consumir, experimentamos um conforto momentâneo que, mesmo de passagem, dá sinais expressivos ao cérebro. E ele compreende como uma possível redução do desconforto emocional. Ou seja, o corpo entende que comer naquele momento é como fazer um carinho na alma.
Mas não é isso. Nesse contexto, o ato de comer deixa de ser uma escolha e se torna uma tentativa inconsciente de regulação das emoções, dos acontecimentos, do mundo lá fora.
A comida passa a ser uma estratégica para enfrentarmos a vida quando faltam recursos internos ou externos para lidarmos com o que sentimos. Sendo assim, os episódios de ansiedade podem se transformar em uma vontade urgente (avassaladora) por doces. E mais, frustrações podem levar ao consumo automático de beliscos e o estresse cotidiano pode resultar em refeições feitas sem atenção. É como um intervalo entre os pensamentos.
Humor e apetite: um relacionamento silencioso
Enquanto seres humanos, temos um comportamento alimentar que resulta de uma interação complexa entre os fatores biológicos, psicológicos e sociais. Isso significa que aquilo que sentimos tem um enorme potencial para alterar além do que comemos. A influência está também em quando comemos, quanto comemos e até na forma como percebemos a fome e a saciedade.
Estados emocionais negativos tendem a reduzir a nossa capacidade de perceber sinais internos do corpo. Eles favorecem escolhas alimentares mais impulsivas ou automáticas. Paralelamente, o cansaço mental tende a diminuir a nossa motivação para preparar refeições equilibradas, de modo a contribuir com o consumo de alimentos altamente palatáveis e de fácil acesso.
Alívio não é saciedade
O estresse afeta o sono. O sono afeta a energia. A baixa energia influencia o movimento. E tudo isso impacta as escolhas alimentares. Temos aqui um paradoxo da vida, da nutrição. Embora determinados alimentos ofereçam alívio imediato, padrões alimentares desorganizados podem contribuir para o agravamento de sintomas emocionais ao longo do tempo. Nasce, então, uma relação bidirecional entre a saúde mental e a alimentação.
Como especialista em neurociência nutricional, Tatiana Vianna, idealizadora da EntrefocUS, costuma dizer que comemos porque estamos emocionalmente sobrecarregados. “Mas depois nos sentimos ainda mais vulneráveis pelo modo como comemos”. Essa relação tóxica pode ter um fim? Vamos falar sobre isso agora.
Escutar antes de reagir
A alimentação emocional não deve ser vista como uma falha no caráter ou falta de disciplina. Ela é, muitas vezes, uma tentativa legítima do organismo de lidar com experiências que ainda não foram totalmente compreendidas ou processadas. Por trás de uma fome repentina, pode existir necessidade de descanso.
Por trás do desejo por conforto alimentar, pode existir insegurança. Por trás do comer automático, pode existir uma grande exaustão. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja sobre o que você está comendo. Mas sim acerca do que você está tentando sentir, ou evitar sentir, no momento.
Reconhecer que as nossas escolhas alimentares podem estar profundamente conectadas ao nosso estado emocional é um convite à escuta. Uma escuta que não julga, mas investiga. Que não reprime, mas compreende. Porque, às vezes, a fome não é de comida. É de pausa. De acolhimento. De presença. E nenhuma refeição é capaz de saciar aquilo que precisa, antes de tudo, ser sentido.









