Tatiana Vianna
“Nutrição é sobre reconexão, não sobre controle ou privação”
Nutricionista, neurocientista, palestrante e idealizadora da EntrefocUS, Tatiana Vianna tem como missão transformar a maneira como as pessoas se relacionam com a alimentação. Sua trajetória une neurociência, nutrição, comportamento, saúde mental e sensibilidade. Tatiana acredita que comer bem vai muito além de rótulos ou regras.
Para ela, trata-se de um caminho de reconexão com o corpo, as emoções e a própria história. Na entrevista a seguir, você confere como Tatiana chegou na neurociência nutricional, a importância dessa vertente científica, bem como suas descobertas e a visão que fundamenta seu trabalho. Um aviso: após a leitura, você repensará tudo o que acredita acerca da alimentação. Você acha que sabe o que é comer bem? Leia o que ela tem a dizer:
Tatiana, qual é a sua formação?
Sou formada em Nutrição pela PUCCAMP (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) e pela UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto). Fiz meu mestrado na USP, no Instituto de Psicologia, com ênfase em Neurociências e Comportamento. Fiz também um aprimoramento em transtornos alimentares e neurociência aplicada à nutrição, além de ter atuado como voluntária em um laboratório de pesquisa com essa abordagem.
Por que você escolheu a nutrição? Era um sonho de infância?
Não era um sonho de infância, não. Minha escolha foi bastante aleatória, na verdade (risos). E isso é curioso, porque hoje sei que só consigo criar as conexões a que me proponho porque me tornei nutricionista. Foi assim: aos 17 anos, terminando o magistério, não tinha certeza do que queria fazer. Um dia, no colégio, com uma amiga, abri o Guia do Estudante e caí na página da nutrição. Achei interessante saber mais sobre os alimentos, ainda mais porque sempre tive uma relação muito boa com a comida. Sempre natural, sem culpa.
Se apaixonou logo nas primeiras aulas?
Não (risos). Aliás, na graduação, algo começou a me incomodar. A forma como a nutrição era apresentada me soava muito restritiva, técnica e, por vezes, desumanizada. “As pessoas terceirizam suas escolhas alimentares ao nutricionista”, eu pensava. Então, sentia que faltava algo. Me formei, trabalhei um tempo na área, mas acabei brigando com a profissão, pela forma como ela era praticada. Fui buscar um novo caminho e foi aí que encontrei a nutrição comportamental. Ela trata da relação entre as pessoas e a comida. E tudo começou a fazer sentido para mim.
O que você considera mais importante no seu trabalho, atualmente?
O mais importante para mim é ajudar as pessoas a fazerem as pazes com a comida, com o corpo e com elas mesmas. Vivemos em uma sociedade que estimula a culpa, os modismos, o controle extremo. Isso é nítido. Então, meu papel é ajudar a pessoa a se libertar. Não acredito em pode ou não pode, alimento bom ou ruim. Acredito na autonomia alimentar.
O que é nutrição para você?
A nutrição, para mim, é uma via de reconexão com os próprios sinais internos: fome, saciedade, prazer, cansaço. Muitas vezes, as pessoas estão desconectadas de si. Ou seja, não sabem se estão com fome ou apenas ansiosas; se estão saciadas ou apenas seguindo um plano. Isso tem a ver com rotina, traumas, pressões sociais e emocionais. Comer de forma consciente exige escuta e presença. Minha missão, portanto, é devolver à pessoa o poder de decisão, com base em informação, ciência e acolhimento. É sobre nutrir, não controlar. Respeitar, não impor: gosto muito disso.
E como surgiu o interesse pela neurociência?
Quando decidi fazer as pazes com a nutrição, saí do Rio de Janeiro, minha cidade natal, e voltei para Campinas, onde tudo começou (na época da graduação). Lá conheci o trabalho da Dra. Sophie Deram, que é nutricionista francesa. Ela falava justamente sobre libertar-se da culpa ao comer. Fiz sua formação de Nutricoach, com PNL aplicada à saúde, e isso me despertou completamente.
E durante esse curso, descobri que a Dra. Sophie era também pesquisadora em um laboratório de neurociência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, com foco em genética dos transtornos alimentares. Fiquei encantada e me tornei voluntária no projeto dela. Antes do mestrado, ainda fiz um aprimoramento interdisciplinar em transtornos alimentares, o que me deu base para entender o comportamento alimentar como um fenômeno multifatorial. Foi aí que me apaixonei de verdade pelo cérebro e pelo comportamento humano. E mais ainda, pela conexão de ambos com a alimentação.
Por falar nisso, para você, qual é a contribuição da neurociência na nutrição?
Ela transforma tudo. A neurociência me deu uma nova lente para enxergar a alimentação. Percebi que comer vai muito além de nutrientes ou calorias. Comer é um comportamento complexo, emocional, fisiológico, neurológico e até genético.
Durante minha atuação no laboratório com a Dra. Sophie, investiguei os circuitos cerebrais envolvidos no comportamento alimentar: fome, saciedade, recompensa, impulsividade, memória alimentar, estresse, autocontrole. Descobri como experiências de vida, emoções e predisposições genéticas moldam o modo como comemos. Isso quebra o modelo reducionista da chamada força de vontade, tão presente nas dietas. Além de tudo, abre espaço para um olhar mais empático, integrativo e baseado em evidências.
Mas como você consegue conectar neurociência e nutrição na prática?
Minha atuação se concentra justamente nessa intersecção entre neurociência, comportamento e nutrição funcional. Olho para o indivíduo como um todo, considerando aspectos fisiológicos, emocionais, culturais e sociais.
Fale um pouco mais do seu trabalho
Trabalho com neurociência nutricional, uma vertente que estuda como os nutrientes afetam o funcionamento do cérebro, e vice-versa. Além disso, atuo com nutrição comportamental, respeitando o contexto e o histórico de cada pessoa. Uso evidências científicas para criar estratégias que favoreçam o equilíbrio, a clareza mental, o foco e o bem-estar emocional.
Tudo isso se reflete na minha prática clínica e também na própria EntrefocUS, uma proposta que levo para empresas, eventos e espaços de desenvolvimento humano. A alimentação pode (e deve!) ser uma ferramenta de presença, autocuidado e transformação.
Basicamente, o que é a nutrição neurofuncional?
É uma abordagem que considera as duas vias entre cérebro e alimentação. Como os nutrientes influenciam o humor, a cognição, o sono, a tomada de decisão. Também, como o cérebro, por sua vez, regula o comportamento alimentar.
A nutrição neurofuncional atua, por exemplo, com o uso estratégico de nutrientes para modular neurotransmissores, melhorar quadros de ansiedade, depressão, insônia, TDAH e até mesmo condições como autismo. Contribui ainda como um suporte cognitivo de crianças e adultos, equilibrando deficiências nutricionais (zinco, ferro, vitaminas B12 e D, entre outras), que impactam diretamente as funções cerebrais.
Outra coisa, a nutrição neurofuncional considera o eixo intestino-cérebro, o cérebro-coração e até o papel da respiração no equilíbrio neurológico. É uma nutrição funcional, aplicada, e acima de tudo, humanizada.
Em resumo…
A nutrição, quando aliada à neurociência, deixa de ser prescritiva para se tornar transformadora. Alimentar-se bem não é sobre perfeição, mas sobre conexão. É sobre dar significado à comida, ouvir o corpo e cultivar o bem-estar físico e mental. É nutrir sem medo. É comer com liberdade e consciência. Esse é o caminho que eu sigo em meu trabalho. Aliás, é assim que convido as pessoas a trilharem essa jornada comigo.